A PAZ COMO MISSÃO: O PAPEL DA DEFESA NA RECONSTRUÇÃO NACIONAL DE TIMOR-LESTE
Intervenção de S. E. Ministro da Defesa de
Timor-Leste
Sessão
Ministerial do g7+
Díli, 12 de
abril de 2025
Venue: Palm
Spring Hotel
A PAZ COMO
MISSÃO: O PAPEL DA DEFESA NA RECONSTRUÇÃO NACIONAL DE TIMOR-LESTE
Exmo Senhor
Vice-Primeiro Ministro, Mariano Assanami Sabino,
Exmo Senhor
Secretário-Geral do g7+, Dr. Hélder da Costa,
Excelências
Ministros e Chefes de Delegação,
Distintos
Convidados,
Minhas
Senhoras e Meus Senhores,
É como
profundo sentido de honra e responsabilidade que participo nesta Reunião
Ministerial do g7+, aqui na nossa capital, Díli, cidade que há 25 anos renascia
das cinzas, entre escombros e esperança.
Quero
agradecer os ministros, Bendito Freitas e Kenyeh Barley pelo convite que me foi
dirigido para ser orador e, sobretudo, saudar o tema inspirador desta sessão –
“From Ashes to Peace and Stability: Timor-Leste’s Journey of Transformation”.
Trata-se, sem dúvida, de uma narrativa que nos orgulha e que queremos partilhar
com países irmãos do g7+.
Excelências
Quando
falamos da trajetória de Timor-Leste, falamos de um povo que, em 1999 tinha o
seu país completamente devastado: 70% das infraestruturas estavam destruídas; a
administração pública encontrava-se desfeita; as forças armadas ainda não
tinham sido formalmente constituídas; e o tecido social estava profundamente
ferido. Na realidade havia um vazio institucional tão grande e profundo, que
ameaçava mergulhar o nosso país no caos.
Foi, neste
contexto, que começámos um caminho difícil e complexo, que só foi possível
percorrer graças à liderança esclarecida dos fundadores da pátria. Foram eles,
que nos motivaram a todos para a transformação da dor em esperança, da
destruição em reconstrução, e da revolta em reconciliação. Também foram eles
que nos mostraram que o nosso inimigo era o atraso, a pobreza e a desunião, que
devíamos combater com a mesma coragem e abnegação com que, ao longo de 24 anos,
lutámos pela independência nacional.
Mas, para
percorremos o caminho tão árduo e difícil que tínhamos e ainda temos pela
frente, tem sido igualmente determinante a coragem e abnegação do nosso povo, o
apoio da comunidade internacional e a criação de instituições sólidas e
legítimas.
Entre essas
instituições, permitam-me destacar aquela sobre a qual tenho agora
responsabilidade política: a Defesa Nacional.
As forças de
Defesa de Timor-Leste, F-FDTL, nasceram da resistência e adaptaram-se à
realidade da paz. Foram instituídas em 2001 com o objetivo de garantir a
soberania, proteger o povo e contribuir para a estabilidade interna . mas, mais
do que uma força militar, as F-FDTL tornaram-se um símbolo de unidade nacional,
de disciplina e de serviço ao interesse público. Por isso, são o orgulho dos
timorenses e do Estado democrático e de dreito que é Timor-Leste.
Desde os
primeiros anos da nossa independência, o setor da Defesa teve uma missão muito
além da componente militar. Com efeito, a sua ação foi central nos esforços de
pacificação, nomeadamente no processo de desmobilização e reintegração de
ex-combatentes, no apoio à segurança interna em coodenação com a Polícia
Nacional e em momentos críticos, como a crise de 2006, e em missões de
e,emergência junto das populações afetadas por desastres naturais.
As F-FDTL
estiveram, e continuam a estar, ao lado do povo, a quem servem com lealdade e
abnegação, porque a sua missão é proteger a dignidade da Nação e estar onde os
timorenses mais precisam. Por isso, participaram na reconstrução das aldeias,
no apoio às campanhas de vacinação, na proteção das florestas, no transporte de
alimentos, e até no ensino de valores cívicos aos mais jovens.
Valorizo
muito este último aspeto, porque a paz é mais forte quando é ensinada e a
juventude aprende: que servir a Nação é uma onra e que a liberdade deve ser
protegida com responsabilidade.
Num tempo em
que muitos dos nossos países enfrentam os desafios da transição pós-conflito,
da fragilidade institucional ou da reconstrução das suas forças armadas, creio
que a experiência de Timor-Leste pode ser útil.
O nossso
percurso mostra que a estabilidade nasce da legitimidade. Que a paz não é
apenas a ausência de guerra, mas presença de instituições ao serviço do bem
comum. Mostra ainda que a Defesa pode ser parte da solução, quando está ao
serviço do povo, quando respeita a autoridade civil, quando integra a cultura
da paz e da cooperação.
No contexto
do g7+, onde tantos países partilham experiências de conflito, reconstrução e
desenvolvimento, Timor-Leste apresenta-se como um exemplo de resiliência, mas
também de aprendizagem contínua.
Hoje, as
nossas Forças de Defesa estão empenhadas em múltiplas missões e a sua atuação assenta na legalidade
democrática e na subordinação ao poder político. E continuam a ser, para muitos
timorenses, uma das instituições em que mais se confiam. Este é um capital que
não se improvisa: constrói-se todos os dias, com trabalho arduo, ética e
entrega.
Exelências,
A experiência timorense demonstra que o setor
da Defesa pode e deve ser um agente transformador na sociedade. O investimento
feito nas F-FDTL não se mede apenas em equipamentos ou infraestruturas, mas
sobretudo na sua capacidade de gerar confiança, de formar lideres, e de
garantir coesão social. O militar timorense de hoje é, muitas vezes, também um
educador, um mediador social, um apoio às autoridades locais, um elemento ativo
na proteção ambiental e na resposta a catástrofes. É alguém que encarna os valores
de coragem, disciplina, solidariedade e compromisso com o bem comum.
Nos últimos anos, temos procurado aprofundar
essa vocação multifacetada da Defesa. Trabalhamos para que as F-FDTL sejam uma
força moderna, capaz de enfrentar os riscos e ameaças contemporâneos, das
alterações climáticas à cibersegurança, da proteção dos recursos naturais à
participação em missões internacionais. Ao mesmo tempo, queremos que continuem
a ser uma escola de cidadania, uma referência para os jovens e um pilar
essencial da identidade nacional.
Sabemos que esta é uma ambição exigente, mas é
uma ambição justa e necessária por três ordens de razões. Em primeiro lugar,
porque a paz não se constrói apenas com discursos ou tratados, mas com
instituições sólidas e com ações concretas no terreno. Em segundo lugar, porque
a soberania não é apenas um princípio jurídico, mas uma prática quotidiana de
dignidade e responsabilidade. Em terceiro lugar, porque o desenvolvimento
sustentável só é possível quando existe segurança humana, isto é, quando cada
cidadão sente que a sua vida, os seu direitos e o seu futuro estão protegidos.
Excelências,
Timor-Leste está comprometido com a paz global.
Por isso, queremos contribuir para a resolução de conflitos através do diálogo
inclusivo e da diplomacia. E é com base nessa visão que o nosso país reafirma a
sua disponibilidade para apoiar as iniciativas multilaterais de promoção da paz
as soluç~oes negociadas em contextos de crise.
Para isso, a nossa política externa é guiada
por princípios de legalidade internacional, de respeito mútuo e de cooperação
entre todos os povos, independentemente dos alinhamentos geoestratégicos. Esta
é uma posição firme do IX-Governo Constitucional, pois acreditamos que só assim
se constrói uma ordem internacional verdadeiramente cooperativa e equilibrada,
liberta de pressões geopolíticas e de divisões originadas pela multipolaridade.
É, neste contexto, que Timor-Leste contribui
para uma sistema internacional cada vez mais compreensível e justo, na procura
multilateral das melhores soluções para o desenvolvimento económico, social,
cultural, científico e tecnológico, e para a defesa e segurança.
O nosso compromisso com a paz global, a
legalidade internacional, o respeito mútuo, a cooperação entre todos os povos e
o multilateralismo é inseparável do nosso percurso histórico, da nossa
identidade enquanto Nação livre e soberana, e da forma como temos vindo a
proteger e usar os nossos recursos naturais. Por isso, preconizamos que o
petróleo e o gás natural do Greater Sunrise devem ser extraídos e empregados
por Timor-Leste para alavancar os setores da saúde, educação, agricultura,
transportes e comunicações, entre outros, de forma a satisfazer as necessidades
básicas e fundamentais de desenvolvimento nacional.
Com este propósito, o IX-Governo
Constitucional, fortemente comprometido com a boa governação, está a construir
instituições credíveis, com mecanismos de gestão financeira transparentes, onde
se incluem auditorias e o uso de programação orçamental. Esta solidez
organizacional reforça a nosso credibilidade junto dos parceiros e potencia uma
cooperação regional e internacional mais justa e eficaz.
Exelências,
É neste espírito que Timor-Leste assume a sua
posição no seio do g7+. Não como um país que tudo resolveu, mas como um país
que aprendeu com a sua dor e que continua a aprender com os seus parceiros.
Queremos ser parte ativa da construção de uma ordem internacional mais justa,
mais solidária e mais centrada nas pessoas. Acreditamos que a Defesqa pode
contribuir para esse objetivo, quando está enraizada na cultura de paz e
orientada por princípios democráticos.
Por isso, reafirmamos a nosso disponibilidade
para cooperar com os países irmãos do g7+ em iniciativas de formação conjunta,
intercâmbio de boas práticas, capacitação institucional e apoio à reconstrução
das capacidades de segurança e defesa. O nosso compromisso é com a paz, uma paz
duradoura, inclusiva e centrada nas necessidades concretas dos povos.
Permitam-me concluir com uma ideia que nos
acompanha desde o início do caminho da construção do nossso Estado-Nação:
Timor-Leste nasceu da luta, sobreviveu pela fé do seu povo e vive hoje pela
força da paz. Que essa paz seja a herança que deixamos às próximas gerações!
Muito obrigado.



